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Mensagem de Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal-Patriarca de Lisboa D. José da Cruz Policarpo para a Quaresma de 2013

Quaresma, tempo de purificação da fé e da caridade

Irmãos e Irmãs,

1. O Santo Padre Bento XVI dirigiu à Igreja a sua Mensagem para esta Quaresma em que nos convida a aprofundar, quer pessoalmente, quer na comunidade eclesial a que pertencemos, a relação entre a fé e a caridade. Esta minha Mensagem pretende, apenas, interpelar a Igreja de Lisboa e cada um de vós, a tomar a sério a palavra do Papa, vivendo esta Quaresma como uma etapa importante da nossa “peregrinação da fé”. Neste tempo litúrgico preparamos a Páscoa, manifestação forte do amor de Deus pelos homens, tão intenso que se pode fazer sentir, no coração humano, até ao fim dos tempos. Na Páscoa cada homem pode sentir-se profundamente amado por Deus e partir para uma maneira de viver centrada no amor, a Deus e ao próximo. Apesar da sua intensidade, só na fé podemos sentir esse amor de Deus; só no Céu o experimentaremos em toda a sua beleza. Então será tão intenso que
reduzirá a nossa existência a esse momento em que somos amados e amamos como Ele ama. Na vida eterna a intensidade conta mais que a duração do tempo. A fé tem a intensidade do amor na humildade da evidência. Hoje vemos como num espelho, só então O veremos face a face, diz São Paulo (cf. Cor. 13,12).
Sendo a Quaresma um tempo de purificação e de penitência, devemos com confiança, purificar as nossas maneiras de acreditar e de amar.

 

Purificar a nossa maneira de acreditar

2. O que significa a fé na nossa vida? As suas expressões têm a densidade do amor? O Santo Padre diz-nos: “A fé constitui aquela adesão pessoal à revelação do amor gratuito e apaixonado que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo”. Quando dizemos “eu creio”, afirmamos apenas que sabemos que Deus existe e esperamos que nos ajude, ou afirmamos que sabemos que Ele nos ama e nos convida a amar? Acreditar é saber-se amado por Deus, o que é a fonte da nossa confiança e do sentido da nossa vida.
Muitas das expressões da nossa fé não têm esta densidade do amor: são atos rituais duma tradição religiosa, formas de pedir a Deus ajuda para as nossas necessidades, oração pelos nossos mortos, etc. Está a nossa fé, nas suas expressões, enraizada na escuta atual e continuada da Palavra do Senhor? A Sua Palavra toca-nos o coração?

 

Purificar a nossa maneira de amar

3. Só a fé viva, ela própria acolhimento do amor, nos pode conduzir no caminho da purificação das nossas expressões de amor. Cada uma delas e todas elas têm de ser, antes de mais, amor a Deus. Esse é o primeiro mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas. Só a fé nos leva a amar a Deus quando amamos os irmãos, porque Ele os ama primeiro e porque os amamos participando da Sua maneira de amar.
Amar é uma capacidade da natureza, é um instinto humano. Mas se não o purificarmos no amor de Deus, aquilo a que chamamos amor tem os limites da nossa natureza pecadora. Para amarmos verdadeiramente, Deus redime-nos continuamente com o Seu amor.
Que nesta peregrinação, durante a Quaresma, cada um analise as principais expressões de amor na sua vida, e peça a Deus que as purifique e lhes dê a pureza da caridade, isto é, do amor que tem a sua fonte em Deus e é participação no modo de Cristo amar, o Pai e os homens seus irmãos. Deixemos que a Páscoa de Jesus redima e transforme todas as nossas experiências de amor: o amor esponsal, o amor fraternal e filial, todas as nossas amizades, a partilha solidária com os irmãos que precisam.

 

4. O processo da purificação da fé e do amor faz-se pelo acolhimento contínuo da Palavra de Deus e pelo mergulhar na Páscoa de Jesus através dos sacramentos, de modo particular o da Reconciliação e da Eucaristia. O Santo Padre diz-nos na sua Mensagem: “A Quaresma, com as indicações que dá tradicionalmente para a vida cristã, convida-nos precisamente a alimentar a fé com uma escuta mais atenta e prolongada da Palavra de Deus e a participação nos sacramentos e, ao mesmo tempo, a crescer na caridade, no amor a Deus e ao próximo, nomeadamente através do jejum, da penitência e da esmola”. Todas estas atitudes supõem o crescimento da fé e desabrocham na caridade. “A fé precede a caridade, mas só se revela genuína se for coroada por ela”, acrescenta o Santo Padre. A prioridade dada à escuta da Palavra faz-nos descobrir “que a maior obra da caridade é a evangelização, ou seja, o serviço da Palavra. Não há ação mais benéfica e, por conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir com ele o pão da Palavra de Deus”. A purificação da fé levar-nos-á a fazer crescer em nós o desejo de evangelizar.

 

5. Neste quadro somos chamados a purificar, também, a nossa partilha quaresmal, entre nós designada “Renúncia Quaresmal” e que este ano, mais uma vez, se destinará a partilhar com Igrejas irmãs que nos solicitem ajuda, sem excluir situações de pobreza da própria família diocesana. Destiná-la, de modo especial, à ajuda fraterna de outras Igrejas, ajudar-nos-á a valorizar o verdadeiro horizonte da fé e da caridade, que não se limita às pessoas individuais, mas que é atitude da Igreja, comunidade crente e Povo do Senhor.
Que Maria, nossa Mãe, noz conduza nesta purificação da fé, para dela fluir sempre a caridade e alegria da Páscoa.

Lisboa, 13 de Fevereiro de 2013, Quarta-Feira de Cinzas

JOSÉ, Cardeal-Patriarca

 

 


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