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DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Desde que o mundo é mundo, quase todos os que têm alguma espécie de poder – dinheiro, posição social, inteligência, manha, sedução – reservaram para si a maior parte da Terra e dos seus bens. Desde que o mundo é mundo, tem havido homens e mulheres capazes de entender que os homens são todos irmãos, e por isso se libertam de lucros injustos, partilham com os necessitados, lutam por uma sociedade diferente. Uns e outros se confrontam com a ideia de Deus.

Os primeiros, ou encolhem os ombros, ou procuram fazer de Deus um baluarte para os seus privilégios: disseram que Deus estabeleceu o mundo desta maneira e prometeu que recompensará no além os que sofreram a fome, humilhações e injustiças. Deve-se reconhecer que houve e há homens e mulheres que lutam pela justiça e não acreditam em Deus: talvez porque se revoltaram contra esta imagem e não imaginaram que pudesse haver um Deus diferente.

Eu creio num Deus que é bom, mas é difícil de entender. Criou-nos para a alegria, e colocou-nos neste mundo tão duro, às vezes tão absurdo. Manda-nos viver na verdade e na justiça, sabendo que quem é mentiroso e injusto costuma passar à frente. Convida-nos a lutar contra toda a escravidão, e diz-nos que a violência não é caminho nem para a justiça nem para a paz. Quem é este Deus tão difícil? Acredito que é o Deus que veio à terra sem poder e sem esplendor, e que experimentou a morte na cruz. Acredito que ressuscitou e nos convida a segui-Lo, hoje na Terra e um dia no Céu. Muitos depois de Jesus, os cristãos “sábios” começaram a falar de Deus como se Ele fosse o Senhor da ordem e dos programas, a totalidade dos possíveis, Ora o Deus da ordem e dos programas é o Deus de Platão, o Deus da totalidade é o Deus de Descartes. Nessas épocas de aparente “saber”, sorrimos com a indulgência de certos passos do Antigo Testamento, que nos pareciam espelhar uma mentalidade primitiva: Deus a resolver castigar a maldade dos homens e depois a desistir, ou mesmo a “arrepender-se” dessa decisão (Jonas 3, 9-10); Deus aceitando discutir com Abraão se era ou não justo destruir uma cidade de pecadores (Gen 18, 16-33); Deus criando o homem e a mulher e dando-lhes o mundo para que o modelem à sua maneira (Gen 1, 27-30).

Estamos hoje a perceber que a linguagem da Bíblia era mais sã e mais verdadeira do que a nossa. “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob”, não Deus dos filósofos e dos sábios. O Deus da Bíblia, não Lhe repugna incitar Moisés a que se revolte contra a escravidão e liberte o seu povo (Ex 3, 1-15). O Deus da Bíblia convida-nos a inventar a vida e história, veio ter connosco para que tivéssemos a alegria (Cf. Jo 16, 24; 1Jo, 1, 4).

O Novo Testamento diz-nos que Deus, sendo único, não é “só”: é Pai, Filho e Espírito Santo. O Filho é gerado eternamente pelo Pai e é enviado pelo Pai ao nosso encontro. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho e é-nos enviado pelo Pai e pelo Filho. A “vida íntima” de Deus fundamenta as missões do Filho e do Espírito Santo.

Padre Mário Faria Silva


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