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XXXIV DOMINGO COMUM

Como remate do ano litúrgico, a Igreja celebra a festa de Cristo Rei.

Entendamos bem este título. Os Evangelhos contam que Jesus não quis reinar na Terra: mandou dar “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21), retirou-se quando alguns exaltados quiseram aclamá-Lo rei (Jo 6, 14-15), ignorou a ideia do demónio, que Lhe dizia que é impossível fazer uma obra grande se não se controlar o poder, o dinheiro e a propaganda (Mt 4, 3-11), recomendou com firmeza aos Seus discípulos que se acautelassem contra a tentação de mandar: “Sabeis que os chefes das nações as governam como donos, e que os grandes gostam de exercer o seu poder. Não seja assim entre vós. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate da multidão.” (Mt 20, 25-28) A Pilatos, que Lhe perguntava se Ele pretendia ser rei, respondeu: “A minha realeza não é deste mundo. Se a minha realeza fosse deste mundo, teria soldados a lutar por mim. Mas o Meu Reino não é de cá.” (J 18, 33-36) E, insistindo Pilatos: “mas sempre és rei…”, Jesus declarou: “É como dizes sou Rei. Para isso nasci, para isso vim a este mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que é da Verdade escuta a minha voz.”( Jo 18, 37) Pilatos ironizou: “Que é a verdade?

Os primeiros cristãos, que tinham estado à espera dum messias político, tardaram em compreender. Mas entenderam finalmente que o projecto de Deus não se desenvolve segundo a lógica dos homens. S. Paulo pôde escrever: “Ele (Jesus), que é de condição divina, não reivindicou ser tratado como Deus. Pelo contrário, deixou tudo e tomou a condição de servo(…). Obedeceu até à morte, e morte de cruz. Por isso Deus O elevou acima de todas as coisas(…), para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor.” (Filip 2, 5-11)

A lógica do homem religioso é espontaneamente diferente desta: A tentação é pensar: a verdade está em Deus, foi-nos revelada por Ele, temos o direito de a anunciar a até a obrigação d a impor. Assim justificámos as cruzadas, a Inquisição, o “Índice dos livros proibidos”. Demorou tempo, mas acabámos por ouvir o Evangelho. Num documento luminoso, o II Concílio Vaticano afirmou que “a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa(…) Todos os homens devem estar livres de coacção, quer por parte dos indivíduos, quer por parte dos grupos sociais ou de qualquer autoridade humana(…). Os homens têm de buscar a verdade,… esse dever atinge e obriga a consciência humana,… (mas) a verdade não se impõe senão pela própria força.” (Declaração Dignitatis Humanae, 1 e 2) Hoje, largos sectores do Islão sofrem a tentação totalitária. Embora tenhamos telhados de vidro (já fizemos o mesmo), gostaríamos que reflectissem sobre estes textos.

Acreditamos que Jesus Cristo é Deus verdadeiro e homem verdadeiro, enviado à Terra pelo Pai, a salvar-nos dos nossos pecados e a ensinar-nos os caminhos de Deus. Aprendemos com espanto e gratidão que, para isso, Ele veio viver a nossa condição humana, “em tudo igual a nós, excepto no pecado”; sem poder, sem diplomas, sem nenhum grupo que o apoiasse, nem sequer os homens da religião. Foi de profissão carpinteiro, pregou o amor e o perdão das ofensas, ergueu a voz contra as mentiras e as injustiças, aceitou o risco da cruz.

É este o nosso Rei.

Queremos ser Suas testemunhas, anunciar a Sua realeza, incompreensível para o mundo. Claro qu, para isso, temos de renunciar igualmente a mandar na Terra, temos de renunciar a toda a estratégia de poder. Precisamos de ter a coragem da verdade e do amor. Na humildade, na firmeza, sem medo à cruz.

Padre Mário Faria Silva


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